Vejo a vida com outros olhos
É difícil depender das pessoas. Não gosto quando preciso interromper uma pessoa que está andando em passos rápidos parecendo estar com pressa para perguntar se caminho na direção certa. Quando sinto a presença de alguém não sei como perguntar, ainda sou novo nisso.
-Bom dia! Hoje vamos aprender as cores!
-Professor eu já sei as cores não podemos aprender outra coisa?
O professor riu, eu era tão pequeno e já pensava que conseguia dominar o mundo montado no meu cavalo de vassoura e atirando bolinhas de papel com o meu estilingue calibre 22.
-Quando você pensa que já aprendeu tudo, que já sabe tudo é aí que você começa a aprender de verdade.
-Mas professor é muito chato ficar vendo essas cores e repetindo os nomes!
-Feche os olhos.
Fechei os olhos sem retrucar, o professor pegou minhas mãos colocou algo e disse:
-Que cor você tem nas mãos?
-Eu não sei.
-Então você não conhece bem as cores.
-Mas não vejo a cor como posso saber?
-Não precisa ver, basta sentir.
Nesse dia eu aprendi a ver e tocar, foi uma descoberta pra mim. E como as crianças fazem festa com cada descoberta eu me senti com um super poder, agora eu era vidente. Fechava os olhos pegava nas coisas e logo falava “marrom”, “vermelho”, bem você só pode ser “verde” e assim fiquei alguns dias sentindo novas sensações.
Cresci gostado das cores e das formas por isso o gosto pela fotografia. Lutei para construir meu próprio estúdio, fazia fotos experimentais e revelava. As pessoas gostavam do meu trabalho que eu levava a vida que gostava.
A vida prega peças, nos pega despreparados e nos força a mudar o nosso caminho, muitas vezes temos que abandonar o barco e traçar uma nova rota.
-Bom dia!
-Olá, veio buscar as fotos?
-Sim já estão prontas?
-Estão secando não posso entrar agora, podem queimar.
-Eu espero, não quero fotos queimadas.
Marli, uma senhora de cabelos anelados e alvos assim como sua pele. Tinha um sorriso encantador, sempre que deixava fotos para revelar acabava esquecendo alguma coisa.
-Bom acho que já deu o tempo vou pegar as fotos.
-Sim eu espero vou sentar um pouco.
-Aqui estão. Que linda garotinha a senhora usou uma boa luz.
-Obrigada é minha neta ela já tem 20 anos essa é uma foto antiga. Até mais, obrigada as fotos estão ótimas.
-Não esqueça o guarda-chuva.
- Oh querido... Obrigada.
Assim Marli partiu em passos lentos me deixando com a imagem da garotinha, que agora havia crescido, na cabeça. Mal sabia eu que a foto da tal garotinha, a tal que havia me olhado com enormes olhos amarelados e sorriso doce, seria a minha ultima revelação. Me senti mal, uma tontura minhas vistas ficaram escuras e quando acordei ainda estavam escuras. Fiquei desesperado quando percebi que estava com os olhos abertos sem poder ver. Não sabia onde estava e só conseguia chorar pedir por socorro, logo veio uma voz para me acalentar.
-Calma senhor vamos te ajudar, mas o senhor tem que manter a calma.
-Onde estou? O que aconteceu?
-Não sabemos ainda, o médico já está chegando.
Fiquei parado tentando me controlar, fiquei em total silêncio e ouvi os barulhos da maquinas que me cercavam, elas reproduziam meus barulhos internos. Depois desse dia tive que me conformar com o meu “estado”. Quando não podemos mudar algo, temos que aprender a usá-lo de alguma forma. Comecei a ter aulas, a sentir dificuldades e em nenhum momento eu odiei o fato de estar cego, mas agradeci por ainda poder falar, andar, escutar enfim... Por estar vivo.
Não vejo as cores, mas sinto a alegria delas, sei que elas existem isso basta e fico feliz. Me sinto mal as vezes por depender das pessoas, passo horas no ponto de ônibus ouvindo o barulho para tentar reconhecer a condução que eu tenho que pegar, passo sempre na padaria que fica no inicio na minha rua para reconhecer o caminho de casa. Essa minha mudança é recente e hoje vou voltar pela primeira vez no meu estúdio, aquele que abandonei após ter visto os olhos mais lindos. Depois de anos e anos fechado ele verá a luz que agora não posso ver, mas ele não tem vida.
-Bom dia! Hoje vamos aprender as cores!
-Professor eu já sei as cores não podemos aprender outra coisa?
O professor riu, eu era tão pequeno e já pensava que conseguia dominar o mundo montado no meu cavalo de vassoura e atirando bolinhas de papel com o meu estilingue calibre 22.
-Quando você pensa que já aprendeu tudo, que já sabe tudo é aí que você começa a aprender de verdade.
-Mas professor é muito chato ficar vendo essas cores e repetindo os nomes!
-Feche os olhos.
Fechei os olhos sem retrucar, o professor pegou minhas mãos colocou algo e disse:
-Que cor você tem nas mãos?
-Eu não sei.
-Então você não conhece bem as cores.
-Mas não vejo a cor como posso saber?
-Não precisa ver, basta sentir.
Nesse dia eu aprendi a ver e tocar, foi uma descoberta pra mim. E como as crianças fazem festa com cada descoberta eu me senti com um super poder, agora eu era vidente. Fechava os olhos pegava nas coisas e logo falava “marrom”, “vermelho”, bem você só pode ser “verde” e assim fiquei alguns dias sentindo novas sensações.
Cresci gostado das cores e das formas por isso o gosto pela fotografia. Lutei para construir meu próprio estúdio, fazia fotos experimentais e revelava. As pessoas gostavam do meu trabalho que eu levava a vida que gostava.
A vida prega peças, nos pega despreparados e nos força a mudar o nosso caminho, muitas vezes temos que abandonar o barco e traçar uma nova rota.
-Bom dia!
-Olá, veio buscar as fotos?
-Sim já estão prontas?
-Estão secando não posso entrar agora, podem queimar.
-Eu espero, não quero fotos queimadas.
Marli, uma senhora de cabelos anelados e alvos assim como sua pele. Tinha um sorriso encantador, sempre que deixava fotos para revelar acabava esquecendo alguma coisa.
-Bom acho que já deu o tempo vou pegar as fotos.
-Sim eu espero vou sentar um pouco.
-Aqui estão. Que linda garotinha a senhora usou uma boa luz.
-Obrigada é minha neta ela já tem 20 anos essa é uma foto antiga. Até mais, obrigada as fotos estão ótimas.
-Não esqueça o guarda-chuva.
- Oh querido... Obrigada.
Assim Marli partiu em passos lentos me deixando com a imagem da garotinha, que agora havia crescido, na cabeça. Mal sabia eu que a foto da tal garotinha, a tal que havia me olhado com enormes olhos amarelados e sorriso doce, seria a minha ultima revelação. Me senti mal, uma tontura minhas vistas ficaram escuras e quando acordei ainda estavam escuras. Fiquei desesperado quando percebi que estava com os olhos abertos sem poder ver. Não sabia onde estava e só conseguia chorar pedir por socorro, logo veio uma voz para me acalentar.
-Calma senhor vamos te ajudar, mas o senhor tem que manter a calma.
-Onde estou? O que aconteceu?
-Não sabemos ainda, o médico já está chegando.
Fiquei parado tentando me controlar, fiquei em total silêncio e ouvi os barulhos da maquinas que me cercavam, elas reproduziam meus barulhos internos. Depois desse dia tive que me conformar com o meu “estado”. Quando não podemos mudar algo, temos que aprender a usá-lo de alguma forma. Comecei a ter aulas, a sentir dificuldades e em nenhum momento eu odiei o fato de estar cego, mas agradeci por ainda poder falar, andar, escutar enfim... Por estar vivo.
Não vejo as cores, mas sinto a alegria delas, sei que elas existem isso basta e fico feliz. Me sinto mal as vezes por depender das pessoas, passo horas no ponto de ônibus ouvindo o barulho para tentar reconhecer a condução que eu tenho que pegar, passo sempre na padaria que fica no inicio na minha rua para reconhecer o caminho de casa. Essa minha mudança é recente e hoje vou voltar pela primeira vez no meu estúdio, aquele que abandonei após ter visto os olhos mais lindos. Depois de anos e anos fechado ele verá a luz que agora não posso ver, mas ele não tem vida.


3 Comentários:
Um outro ensaio sobre a cegueira? Não, não. Saramago não sabia nada sobre fotografia...
Poliana.
Se a história fosse contada inteira,
o que esse conto tornar-se-ia?
Outro "Ensaio sobre a cegueira"?
Não, Saramago era ruim de fotografia.
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