Cada ato é a conseqüência de um fato, que nos impulsiona a fazer coisas conscientes ou não. Sou como esse impulso, me jogo sem saber onde, não penso muito no que faço pois a vida não me da esse tempo.
7 de maio de 2009
Agora vejo a vida com outros olhos....
É difícil depender das pessoas. Não gosto quando preciso interromper uma pessoa que está andando em passos rápidos parecendo estar com pressa para perguntar se caminho na direção certa. Quando sinto a presença de alguém não sei como perguntar, ainda sou novo nisso. -Bom dia! Hoje vamos aprender as cores! -Professor eu já sei as cores não podemos aprender outra coisa? O professor riu, eu era tão pequeno e já pensava que conseguia dominar o mundo montado no meu cavalo de vassoura e atirando bolinhas de papel com o meu estilingue calibre 22. -Quando você pensa que já aprendeu tudo, que já sabe tudo é aí que você começa a aprender de verdade. -Mas professor é muito chato ficar vendo essas cores e repetindo os nomes! -Feche os olhos. Fechei os olhos sem retrucar, o professor pegou minhas mãos colocou algo e disse: -Que cor você tem nas mãos? -Eu não sei. -Então você não conhece bem as cores. -Mas não vejo a cor como posso saber? -Não precisa ver, basta sentir. Nesse dia eu aprendi a ver e tocar, foi uma descoberta pra mim. E como as crianças fazem festa com cada descoberta eu me senti com um super poder, agora eu era vidente. Fechava os olhos pegava nas coisas e logo falava “marrom”, “vermelho”, bem você só pode ser “verde” e assim fiquei alguns dias sentindo novas sensações. Cresci gostado das cores e das formas por isso o gosto pela fotografia. Lutei para construir meu próprio estúdio, fazia fotos experimentais e revelava. As pessoas gostavam do meu trabalho que eu levava a vida que gostava. A vida prega peças, nos pega despreparados e nos força a mudar o nosso caminho, muitas vezes temos que abandonar o barco e traçar uma nova rota. -Bom dia! -Olá, veio buscar as fotos? -Sim já estão prontas? -Estão secando não posso entrar agora, podem queimar. -Eu espero, não quero fotos queimadas. Marli, uma senhora de cabelos anelados e alvos assim como sua pele. Tinha um sorriso encantador, sempre que deixava fotos para revelar acabava esquecendo alguma coisa. -Bom acho que já deu o tempo vou pegar as fotos. -Sim eu espero vou sentar um pouco. -Aqui estão. Que linda garotinha a senhora usou uma boa luz. -Obrigada é minha neta ela já tem 20 anos essa é uma foto antiga. Até mais, obrigada as fotos estão ótimas. -Não esqueça o guarda-chuva. - Oh querido... Obrigada. Assim Marli partiu em passos lentos me deixando com a imagem da garotinha, que agora havia crescido, na cabeça. Mal sabia eu que a foto da tal garotinha, a tal que havia me olhado com enormes olhos amarelados e sorriso doce, seria a minha ultima revelação. Me senti mal, uma tontura minhas vistas ficaram escuras e quando acordei ainda estavam escuras. Fiquei desesperado quando percebi que estava com os olhos abertos sem poder ver. Não sabia onde estava e só conseguia chorar pedir por socorro, logo veio uma voz para me acalentar. -Calma senhor vamos te ajudar, mas o senhor tem que manter a calma. -Onde estou? O que aconteceu? -Não sabemos ainda, o médico já está chegando. Fiquei parado tentando me controlar, fiquei em total silêncio e ouvi os barulhos da maquinas que me cercavam, elas reproduziam meus barulhos internos. Depois desse dia tive que me conformar com o meu “estado”. Quando não podemos mudar algo, temos que aprender a usá-lo de alguma forma. Comecei a ter aulas, a sentir dificuldades e em nenhum momento eu odiei o fato de estar cego, mas agradeci por ainda poder falar, andar, escutar enfim... Por estar vivo. Não vejo as cores, mas sinto a alegria delas, sei que elas existem isso basta e fico feliz. Me sinto mal as vezes por depender das pessoas, passo horas no ponto de ônibus ouvindo o barulho para tentar reconhecer a condução que eu tenho que pegar, passo sempre na padaria que fica no inicio na minha rua para reconhecer o caminho de casa. Essa minha mudança é recente e hoje vou voltar pela primeira vez no meu estúdio, aquele que abandonei após ter visto os olhos mais lindos. Depois de anos e anos fechado ele verá a luz que agora não posso ver, mas ele não tem vida.
Eu tinha um jegue, era a única coisa que eu tinha, mas um dia deu fome e troquei por três galinhas.
Minha mulher no começo não gostou da idéia, achou pouca coisa pediu pra destrocar então mostrai pra ela quem mandava no lugar.
Falei que se ela não gostasse no meu jeito ela tinha que ter muito peito pra mode me afrontar, pois grosseria de mulher nenhuma eu agüento e mesmo eu sendo duro como cimento ela havia de me respeitar.
Então ela saiu do banheiro gritou bem alto pra todo mundo escutar: “Ta resmungando o quê? Não ouvi direito, ta falando algo sobre peito deve de ser das galinhas da cozinha que tu ta a palpitar.”
Mas não ficou por isso respondi bem a altura! Então gritei também pra todo mundo ver que na casa também tem macho e que eu não fico por baixo pra fêmea nenhuma me pisar.
Tava falando de galinha coisa nenhuma... Mais a mulher nem deixou terminar.
Ta gritando por quê? Por acaso não to na tua frente? To te achando meio diferente, esquisito pra danar. Diga logo o que tu tem, pois não tenho o dia todo pra gastar aqui, e vê se fala comigo direito por que homem pra ter respeito não precisa com a mulher gritar.
Aí foi o fim da picada, ela podia até agüentar desaforo calada, mas pro meu lado isso não ia prestar. Respirei um pouquinho pra soltar tudo que tava entalado então virei pro seu lado e danei-me a falar.
Tava falando das galinhas sim! Que tão na mesa e que depois que você fizer um bom prato e uma sobremesa todo mundo vai saborear, não é meu benzinho? Vai lá amorzinho faz tudo com carinho que é pra mais tarde a gente se assanhar. Falei tudo isso sem muito rebuliço porque lá em casa quando a mulher fala todo mundo escuta, mais obedece quem tem juízo.