22 de dezembro de 2010

Solidão

Eu estava ali, parado vendo o caixote descrer... sumir no chão. Não me desciam lagrimas nos olhos, eu apenas olhava com olhos arregalados. Da minha boca nada se murmurava e a única dor que eu sentia era dos pingos da vela em meus dedos. Dia escuro, nublado, todos usavam preto menos o senhor que controlava o tempo da descida do caixote, ele estava sujo e me dava medo. Quando cheguei em casa estava tudo vazio,mas aos poucos ela foi ficando cheia com as pessoas que foram chegando, todos eram velhos e tristes. Me abraçavam e choravam e eu apenas olhava.
-Você não entende é muito pequeno, mas sua mamãe...
E a triste senhora não conseguiu terminar o assunto, logo se entregou ao pranto e foi acolhida ali mesmo. Eu já sabia que nunca mais veria minha mãe, minha vó certa vez me disse que quando alguém morre, dorme para sempre e enterramos na terra para nascerem flores no lugar e então regamos as flores e colhemos elas quando estão grandes e bonitas pra estarem sempre perto da gente. Sentia falta da mamãe mas não entendia porque não conseguia chorar como todos. Meu pai me deu um abraço e disse que nunca ia me abandonar ou coisa assim ele era o que mais sofria.
Pai eu te amo, e a mamãe também.
Ele me olhou nos olhos e me abraçou novamente.
Quando dói muito parece que tem um vazio dentro da gente que nunca vai acabar. O nome desse vazio é saudade a gente lembra dos bons momentos vividos e o vazio aumenta toma conta, dói. Cresci sem a mamãe e meu pai... esse mudou totalmente. Quando completei dezoito anos me deu a chave da casa e falou que eu podia ficar com ela, e que nada mais ali era dele, subiu na moto e foi sumindo aos poucos assim como o caixote da mamãe. Ele viveu amargurado durante dez anos, sempre distante e com um litro de aguardente, tive que aprender a me virar sozinho desde cedo cuidava de mim, da casa e dele.

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O título é perfeito. Em plena época de natal, chega a ser uma ironia...

dezembro 26, 2010  
Anonymous Anônimo disse...

A chave da casa não faz um homem
como o aguardente não faz um louco;
as flores que nascem, um dia somem,
e quem enterra sempre morre um pouco.

janeiro 04, 2011  

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