30 de junho de 2011

Um conto de criança.

Quando criança tinha medo de virar adulta, da responsabilidade, das cobranças, de como me comportar na frente dos outros... Certo dia meu pai me chamou para ir ao trabalho com ele, eu tinha os meus cinco anos de idade, entramos no ônibus a ali minha aventura começou. Tudo era uma novidade para mim, como as pessoas se vestiam, como elas andavam, as casas...Quando a gente é criança, o mundo tem mais cor. Tenho uma vaga lembrança da sombra das arvores passando pelo vidro da janela e de como todas as pessoas sentadas ali pareciam sérias, tive medo de um senhor que me olhava mal por estar de pé no banco olhando a paisagem lá fora. Ainda em pé no banco, segurei-me na janela e fiquei na pontinha dos pés tentando ver as figuras de um livro que a moça sentada à frente foleava. Levei um susto e quase caí do banco quando ela olho pra trás e me disse escondendo o livro “Coisa feia ficar espiando os outros”, nessa hora meu pai me reprovou com seu olhar, aquele olhar que só os pais tem. Sentei-me no banco com as perninhas encolhidas, eu não entendia como tanta gente junta conseguia fazer tanto silêncio, algumas dormiam cansadas como se tivessem voltando e não indo, outras liam jornais outras ficavam olhando para fora do ônibus e outras ficavam olhando para a cabeça das outras como se estivessem em uma fila de boi indo para o matadouro, o meu pai estava assim, indo pro matadouro.
-Pai, o senhor gosta do seu trabalho?
-Não tenho essa opção de gostar, não estudei, então não posso reclamar do que tenho.
Me respondeu em voz baixa, acho que ele estava com medo de acordar as pessoas que estavam dormindo.
-Quando eu crescer, vou trabalhar muito pra divertir todas as pessoas do mundo, e quando elas estiverem voltando pra casa vão estar felizes, e vão trabalhar felizes e vou dar balinha pra todo mundo!
Meu pai riu, e pra mim seu riso não fez sentido.
-Você ainda é muito pequena, quando crescer e virar adulta vai ver que nada disso importa.
Nessa hora dei um grito, as pessoas que dormiam acordaram, as do matadouro me olharam irritadas, por três segundos fui o centro das atenções.
-Eu não vou virar adulta!
Depois que as pessoas perceberam que era uma criança falando algo que não lhes interessava, todos voltaram aos seu afazeres.
-Minha filha, fique quieta, e não de mais nenhum pio até chegar!
-É assim que vocês fazem? Então vou ser adulta até chegar!
Cruzei os braços e fui calada até lá.
Sempre acreditei que quando a gente cresce, o coração morre. O meu ainda respira, mas não sei quanto tempo tenho até crescer...

7 de janeiro de 2011

Ilha do Bras

A cidade parece morrer depois das onze da noite. Folhas secas ficam evidentes no chão da cidade que dorme. Parquinhos perdem o encanto da tarde ficando frios e sombrios. Luzes ficam amareladas no alto dos postes, o frio aumenta e o único barulho que se ouve é o canto das cigarras.
Vez ou outra passam carros e motos apressados ultrapassando sinais e fazendo “gatos”.
É uma cidade muito engraçada onde as pessoas parecem sempre estar no piloto automático. Pela manhã quando vamos ao mercado e pegamos nosso carrinho de compras, olhamos as prateleiras, pegamos o que nos interessa e levamos ao caixa, logo vem o “Bom dia senhor!” Se você responde a atendente acha que já está querendo cantá-la e pode até te processar por assédio.
“Qual a forma de pagamento senhor?” “Credito ou debito?” ou se for no dinheiro “Tem dez centavos?”. Todos os dias as pessoas passam nas mesmas ruas, vêm às mesmas pessoas, param nos mesmo sinais e quando é feriado a cidade bomba. Parece que jogaram uma bomba na cidade e todos recuaram a área.
Pessoas reclamam dos preços, dos ônibus lotados da cidade suja, dos marginais, dos políticos. Sim elas RECLAMAM apenas isso, e não querem as coisas iguais, mas esperam que alguém tome frente para haver uma mudança.
A cidade lembra os materiais de aulas do ensino básico, tem tesourinhas, quadrados, bolas, carrinhos... Mas ela não é habitada somente por crianças, mas por jovens, adultos e muitos idosos.
O espiral da cidade é feito de acordo com quem tem. Os quem tem dinheiro moram no miolo, os que têm um pouco menos na outra camada e assim vai, quanto mais longe do miolo, mais pobre. E ainda tem um povo que nem chega muito perto desse circulo central prefere ficar só no entorno mesmo.
Dizem que essa cidade é como uma geladeira, cheia de pessoas conservadas e frias. Falam isso porque só conseguem ver o chantili do café, vêem a estética bonita e branquinha, o café preto fica embaixo escondido e fervendo.Com o chantili o café fica mais bonito mas sem o café o chantili perde a base que o sustenta.

Quem fala mais alto as vezes desce do salto


Eu tinha um jegue, era a única coisa que eu tinha, mas um dia deu fome e troquei por três galinhas.
Minha mulher no começo não gostou da idéia, achou pouca coisa pediu pra destrocar então mostrei pra ela quem mandava no lugar.
Falei que se ela não gostasse do meu jeito ela tinha que ter muito peito pra mode me afrontar, pois grosseria de mulher nenhuma eu agüento e mesmo eu sendo duro como cimento ela havia de me respeitar.
Então ela saiu do banheiro gritou bem alto pra todo mundo escutar: “Ta resmungando o quê? Não ouvi direito, ta falando algo sobre peito deve de ser das galinhas da cozinha que tu ta a palpitar.”
Mas não ficou por isso respondi bem a altura! Então gritei também pra todo mundo ver que na casa também tem macho e que eu não fico por baixo pra fêmea nenhuma me pisar.
Tava falando de galinha coisa nenhuma... Mais a mulher nem deixou terminar.
Ta gritando por quê? Por acaso não to na tua frente? To te achando meio diferente, esquisito pra danar. Diga logo o que tu tem, pois não tenho o dia todo pra gastar aqui, e vê se fala comigo direito por que homem pra ter respeito não precisa com a mulher gritar.
Aí foi o fim da picada, ela podia até agüentar desaforo calada, mas pro meu lado isso não ia prestar. Respirei um pouquinho pra soltar tudo que tava entalado então virei pro seu lado e danei-me a falar.
Tava falando das galinhas sim! Que tão na mesa e que depois que você fizer um bom prato e uma sobremesa todo mundo vai saborear, não é meu benzinho? Vai lá amorzinho faz tudo com carinho que é pra mais tarde a gente se assanhar. Falei tudo isso sem muito rebuliço porque lá em casa quando a mulher fala todo mundo escuta, mais obedece quem tem juízo.