7 de janeiro de 2011

Ilha do Bras

A cidade parece morrer depois das onze da noite. Folhas secas ficam evidentes no chão da cidade que dorme. Parquinhos perdem o encanto da tarde ficando frios e sombrios. Luzes ficam amareladas no alto dos postes, o frio aumenta e o único barulho que se ouve é o canto das cigarras.
Vez ou outra passam carros e motos apressados ultrapassando sinais e fazendo “gatos”.
É uma cidade muito engraçada onde as pessoas parecem sempre estar no piloto automático. Pela manhã quando vamos ao mercado e pegamos nosso carrinho de compras, olhamos as prateleiras, pegamos o que nos interessa e levamos ao caixa, logo vem o “Bom dia senhor!” Se você responde a atendente acha que já está querendo cantá-la e pode até te processar por assédio.
“Qual a forma de pagamento senhor?” “Credito ou debito?” ou se for no dinheiro “Tem dez centavos?”. Todos os dias as pessoas passam nas mesmas ruas, vêm às mesmas pessoas, param nos mesmo sinais e quando é feriado a cidade bomba. Parece que jogaram uma bomba na cidade e todos recuaram a área.
Pessoas reclamam dos preços, dos ônibus lotados da cidade suja, dos marginais, dos políticos. Sim elas RECLAMAM apenas isso, e não querem as coisas iguais, mas esperam que alguém tome frente para haver uma mudança.
A cidade lembra os materiais de aulas do ensino básico, tem tesourinhas, quadrados, bolas, carrinhos... Mas ela não é habitada somente por crianças, mas por jovens, adultos e muitos idosos.
O espiral da cidade é feito de acordo com quem tem. Os quem tem dinheiro moram no miolo, os que têm um pouco menos na outra camada e assim vai, quanto mais longe do miolo, mais pobre. E ainda tem um povo que nem chega muito perto desse circulo central prefere ficar só no entorno mesmo.
Dizem que essa cidade é como uma geladeira, cheia de pessoas conservadas e frias. Falam isso porque só conseguem ver o chantili do café, vêem a estética bonita e branquinha, o café preto fica embaixo escondido e fervendo.Com o chantili o café fica mais bonito mas sem o café o chantili perde a base que o sustenta.

Quem fala mais alto as vezes desce do salto


Eu tinha um jegue, era a única coisa que eu tinha, mas um dia deu fome e troquei por três galinhas.
Minha mulher no começo não gostou da idéia, achou pouca coisa pediu pra destrocar então mostrei pra ela quem mandava no lugar.
Falei que se ela não gostasse do meu jeito ela tinha que ter muito peito pra mode me afrontar, pois grosseria de mulher nenhuma eu agüento e mesmo eu sendo duro como cimento ela havia de me respeitar.
Então ela saiu do banheiro gritou bem alto pra todo mundo escutar: “Ta resmungando o quê? Não ouvi direito, ta falando algo sobre peito deve de ser das galinhas da cozinha que tu ta a palpitar.”
Mas não ficou por isso respondi bem a altura! Então gritei também pra todo mundo ver que na casa também tem macho e que eu não fico por baixo pra fêmea nenhuma me pisar.
Tava falando de galinha coisa nenhuma... Mais a mulher nem deixou terminar.
Ta gritando por quê? Por acaso não to na tua frente? To te achando meio diferente, esquisito pra danar. Diga logo o que tu tem, pois não tenho o dia todo pra gastar aqui, e vê se fala comigo direito por que homem pra ter respeito não precisa com a mulher gritar.
Aí foi o fim da picada, ela podia até agüentar desaforo calada, mas pro meu lado isso não ia prestar. Respirei um pouquinho pra soltar tudo que tava entalado então virei pro seu lado e danei-me a falar.
Tava falando das galinhas sim! Que tão na mesa e que depois que você fizer um bom prato e uma sobremesa todo mundo vai saborear, não é meu benzinho? Vai lá amorzinho faz tudo com carinho que é pra mais tarde a gente se assanhar. Falei tudo isso sem muito rebuliço porque lá em casa quando a mulher fala todo mundo escuta, mais obedece quem tem juízo.

Cada um cuide se sua vida

Peraú é uma cidadezinha pequena onde tudo que acontece de diferente é motivo de comentários.
Nessa cidade três moradoras são conhecidas nas ruas por saberem sempre das ultimas noticias, são quase jornais moveis.
-Bom dia meninas!
-Bom dia!
-Dia!
-Violeta, ficou sabendo da ultima?
-Nada to indo na padaria agora resolvi acordar um pouco tarde o povo La em casa já de no pé.Que foi heim?
-Sonha não te contou?
-Contei não ia contar agora.
-Pois então contem logo vocês duas que to muito curiosa pra saber.
-Vou contar...
-Deixe Sonha, se ainda não contou conto eu.
-Então conte criatura!
-Ontem quando a cidade dormia, você ouviu algum barulho?
-Ouvi sim, mas não dei muita importância, o que tem o barulho?
-Menina foi o filho do prefeito que resolveu fugir de casa derrubando o portão com o carro e tudo!
-Mentira?! Mas passei hoje mesmo na frente do casarão e o portão não tinha um só amassado!
-Pois é não sabemos como arrumaram tão rápido, mas eu e Cristina vimos tudinho com esses olhos que a terra há de comer.
-Gente, mas um menino tão bom fazer uma coisa dessas?!
-O pior não foi nem isso.
-E o que foi Cristina?
-Ele levou uma guria junto, o pai ta aos prantos lá no bar.
-Bem feito pra esse aí, não sabe criar a filha é isso que dá!
-Mas meninas, como é o nome da guria vocês sabem?
-Ué, o que é que a gente não sabe Violeta?É Camila, uma menina seca que sempre descia a rua de mini saia.
-Meu pai amado! É minha filha!