22 de dezembro de 2010

Vejo a vida com outros olhos

É difícil depender das pessoas. Não gosto quando preciso interromper uma pessoa que está andando em passos rápidos parecendo estar com pressa para perguntar se caminho na direção certa. Quando sinto a presença de alguém não sei como perguntar, ainda sou novo nisso.
-Bom dia! Hoje vamos aprender as cores!
-Professor eu já sei as cores não podemos aprender outra coisa?
O professor riu, eu era tão pequeno e já pensava que conseguia dominar o mundo montado no meu cavalo de vassoura e atirando bolinhas de papel com o meu estilingue calibre 22.
-Quando você pensa que já aprendeu tudo, que já sabe tudo é aí que você começa a aprender de verdade.
-Mas professor é muito chato ficar vendo essas cores e repetindo os nomes!
-Feche os olhos.
Fechei os olhos sem retrucar, o professor pegou minhas mãos colocou algo e disse:
-Que cor você tem nas mãos?
-Eu não sei.
-Então você não conhece bem as cores.
-Mas não vejo a cor como posso saber?
-Não precisa ver, basta sentir.
Nesse dia eu aprendi a ver e tocar, foi uma descoberta pra mim. E como as crianças fazem festa com cada descoberta eu me senti com um super poder, agora eu era vidente. Fechava os olhos pegava nas coisas e logo falava “marrom”, “vermelho”, bem você só pode ser “verde” e assim fiquei alguns dias sentindo novas sensações.
Cresci gostado das cores e das formas por isso o gosto pela fotografia. Lutei para construir meu próprio estúdio, fazia fotos experimentais e revelava. As pessoas gostavam do meu trabalho que eu levava a vida que gostava.
A vida prega peças, nos pega despreparados e nos força a mudar o nosso caminho, muitas vezes temos que abandonar o barco e traçar uma nova rota.
-Bom dia!
-Olá, veio buscar as fotos?
-Sim já estão prontas?
-Estão secando não posso entrar agora, podem queimar.
-Eu espero, não quero fotos queimadas.
Marli, uma senhora de cabelos anelados e alvos assim como sua pele. Tinha um sorriso encantador, sempre que deixava fotos para revelar acabava esquecendo alguma coisa.
-Bom acho que já deu o tempo vou pegar as fotos.
-Sim eu espero vou sentar um pouco.
-Aqui estão. Que linda garotinha a senhora usou uma boa luz.
-Obrigada é minha neta ela já tem 20 anos essa é uma foto antiga. Até mais, obrigada as fotos estão ótimas.
-Não esqueça o guarda-chuva.
- Oh querido... Obrigada.
Assim Marli partiu em passos lentos me deixando com a imagem da garotinha, que agora havia crescido, na cabeça. Mal sabia eu que a foto da tal garotinha, a tal que havia me olhado com enormes olhos amarelados e sorriso doce, seria a minha ultima revelação. Me senti mal, uma tontura minhas vistas ficaram escuras e quando acordei ainda estavam escuras. Fiquei desesperado quando percebi que estava com os olhos abertos sem poder ver. Não sabia onde estava e só conseguia chorar pedir por socorro, logo veio uma voz para me acalentar.
-Calma senhor vamos te ajudar, mas o senhor tem que manter a calma.
-Onde estou? O que aconteceu?
-Não sabemos ainda, o médico já está chegando.
Fiquei parado tentando me controlar, fiquei em total silêncio e ouvi os barulhos da maquinas que me cercavam, elas reproduziam meus barulhos internos. Depois desse dia tive que me conformar com o meu “estado”. Quando não podemos mudar algo, temos que aprender a usá-lo de alguma forma. Comecei a ter aulas, a sentir dificuldades e em nenhum momento eu odiei o fato de estar cego, mas agradeci por ainda poder falar, andar, escutar enfim... Por estar vivo.
Não vejo as cores, mas sinto a alegria delas, sei que elas existem isso basta e fico feliz. Me sinto mal as vezes por depender das pessoas, passo horas no ponto de ônibus ouvindo o barulho para tentar reconhecer a condução que eu tenho que pegar, passo sempre na padaria que fica no inicio na minha rua para reconhecer o caminho de casa. Essa minha mudança é recente e hoje vou voltar pela primeira vez no meu estúdio, aquele que abandonei após ter visto os olhos mais lindos. Depois de anos e anos fechado ele verá a luz que agora não posso ver, mas ele não tem vida.

Solidão

Eu estava ali, parado vendo o caixote descrer... sumir no chão. Não me desciam lagrimas nos olhos, eu apenas olhava com olhos arregalados. Da minha boca nada se murmurava e a única dor que eu sentia era dos pingos da vela em meus dedos. Dia escuro, nublado, todos usavam preto menos o senhor que controlava o tempo da descida do caixote, ele estava sujo e me dava medo. Quando cheguei em casa estava tudo vazio,mas aos poucos ela foi ficando cheia com as pessoas que foram chegando, todos eram velhos e tristes. Me abraçavam e choravam e eu apenas olhava.
-Você não entende é muito pequeno, mas sua mamãe...
E a triste senhora não conseguiu terminar o assunto, logo se entregou ao pranto e foi acolhida ali mesmo. Eu já sabia que nunca mais veria minha mãe, minha vó certa vez me disse que quando alguém morre, dorme para sempre e enterramos na terra para nascerem flores no lugar e então regamos as flores e colhemos elas quando estão grandes e bonitas pra estarem sempre perto da gente. Sentia falta da mamãe mas não entendia porque não conseguia chorar como todos. Meu pai me deu um abraço e disse que nunca ia me abandonar ou coisa assim ele era o que mais sofria.
Pai eu te amo, e a mamãe também.
Ele me olhou nos olhos e me abraçou novamente.
Quando dói muito parece que tem um vazio dentro da gente que nunca vai acabar. O nome desse vazio é saudade a gente lembra dos bons momentos vividos e o vazio aumenta toma conta, dói. Cresci sem a mamãe e meu pai... esse mudou totalmente. Quando completei dezoito anos me deu a chave da casa e falou que eu podia ficar com ela, e que nada mais ali era dele, subiu na moto e foi sumindo aos poucos assim como o caixote da mamãe. Ele viveu amargurado durante dez anos, sempre distante e com um litro de aguardente, tive que aprender a me virar sozinho desde cedo cuidava de mim, da casa e dele.

18 de dezembro de 2010

Nocturna

Certo dia avistei de longe um pássaro estirado no chão. Quando cheguei perto me assustei pois ele não era um pássaro comum era uma pequena corujinha e era tão frágil, e estava machucada. Peguei a pequena com cuidado e a coloquei em uma caixinha, chamei-a de Nocturna . Depois de uns meses ela já estava bem melhor, então não dava para continuar na caixinha, ela voaria, resolvi comprar uma pequena gaiola com os trocados que tinha. Cuidei dela ate ficar bem forte. Ela tinha um canto inconfundível não tem como descrever, e sempre que me via se alegrava, eu também me alegrava bastante com ela. Ao passar do tempo fui me apegando a ela cada vez mais... Mas por ser uma coruja ela sentia falta de voar... de ser livre.
Todos os dias eu levantava bem cedinho e colocava seu café, mas ela já não cantava com minha presença, não se alegrava como antes e foi ai que percebi que não se pode criar corujas em gaiolas tão pequenas...
Era tão grande meu amor por ela... Eu não sabia o que fazer, era egoísmo da minha parte continuar prendendo um animal que clama tanto por liberdade. O meu maior medo era solta-la e perde-la para sempre, mas vê-la tão triste não era justo, eu estava matando ela aos poucos com isso. Então, um dia quando fui colocar seu café ela não hesitou e acabou me bicando. Esse foi o fim, sei que ela não queria... Como doía ver que foi preciso ela me ferir para eu perceber que eu não tinha o direito de continuar pendendo-a, se eu realmente a amava tinha que deixá-la ir.
Com muita tristeza abri à gaiola e ela levantou vôo esticando suas asas, não sabia que eram tão grandes. Vi então que fiz o que era melhor para ela. Os momentos que passamos juntas vão ficar pra sempre! Ainda a amo, e é por amá-la que espero que um dia ela forme uma família linda e arrume companhia, pois não se vive sozinho por muito tempo.

8 de dezembro de 2010

Gotas de chuva

Depois de uma dança ele segurou minha mão e sem falar nada o segui. Eu estava um pouco tonta por causa da bebida ou de algo mais. Minha mente viajava como uma brisa leve, e eu deixava me envolver por meus sentidos aguçados. Depois da dança não falamos nada, só nos sentimos, só isso. Ele passava sua mão na minha, encostava seu rosto no meu e todo o resto parecia sumir.Não sabia nada sobre ele nem o seu nome, nunca tinha visto aqueles olhos tão escuros. Depois de um abraço forte ele resolveu sussurrar algo no meu ouvido, não me lembro bem o que foi... Senti um arrepio que correu rapidamente pelo meu corpo. Eu estava totalmente entregue a uma pessoa desconhecida. Ele segurou minha mão e começamos a correr pela chuva que caia molhando nosso corpo, já estávamos longe de todos, perto do lago. Era como se nos conhecêssemos há anos, eu não tinha medo ou qualquer outro sentimento ruim, estava vivendo uma noite diferente. Começamos a conversar algo sem importância, riamos sem motivo, nossos olhos se encontravam com um intervalo de tempo cada vez menor. Segurando o meu rosto, ele se aproximou e me beijou. Ficamos nos beijando durante um tempo e quando terminamos eu não sabia o que fazer, nem ele.
-Tenho que ir, desculpe.
-Fica mais, nunca senti nada assim tão intenso e rápido por ninguém. Fica. Eu te levo em casa, já ta tarde.
-Desculpe, tenho que ir mesmo. Não quero me envolver com ninguém. Não por agora, e eu nem sei seu nome nem nada sobre você.
-Estava indo tudo tão bem, eu passei da conta foi isso?
-Não... Eu estava gostando também, mas tenho que ir mesmo.
-Não se lembra do meu nome?
-Desculpe, não sou boa com nomes.
-Não tem problema, fica mais um pouco...
Ele me puxou pelo braço e me deu outro abraço forte, me senti tão protegida. Nos beijamos outra vez, e outra, e outra... A chuva estava ficando cada vez mais forte. As gotas que molhavam nossos corpos me fazia sentir vontade de fazer algumas coisas e a bebida me dava a coragem que eu precisava para executá-las. De algum lugar surgiu uma musica calma, não dava pra ouvir direito, pois estava longe. Ele me convidou pra uma dança... E então eu acordei. Parecia tão real, mas não foi.